http://babugem.blogspot.com (Janeiro 2006)
A CADÊNCIA DE MUFFAT
CLASSIFICAÇÃO: 9/10
Ando a escutar mais um excelente disco da
Ramée. No caso, dedicado ao compositor franco-alemão Georg Muffat
(1653-1704) que alguns musicólogos afirmam que poderá ter recebido
lições de Jean-Baptiste Lully quando, com a idade de dez anos
apenas, rumou a Paris para dar início aos seus estudos musicais que se
prolongariam na capital francesa por seis anos. Mais tarde, Muffat viria a ser
responsável pela introdução do estilo ballet do mesmo Lully
que consistia em música produzida por um agrupamento de cordas
com cerca de vinte elementos altamente disciplinados e exímios na arte
da ornamentação na Alemanha e Áustria.
Em 1978, tinha Muffat 25 anos, quando conheceu, na qualidade de organista do
cardeal de Salzburgo, o enorme Henrich Ignaz Franz Biber, outro nome com lugar
cativo junto dos mais importantes compositores do período: onde Georg
Muffat não surge habitualmente destacado talvez porque parte significativa
da sua obra se tenha perdido. Outro encontro decisivo ao processo de maturação
da técnica de composição muffateana, teve lugar em Roma
quando o compositor apresentou a Arcangelo Corelli algumas das suas mais recentes
peças: mais propriamente as que se encontram representadas neste CD
cinco sonatas de câmara no estilo dos concerti grossi baptizadas
de Armonico Tributo. Alguns dos trabalhos de Corelli posteriores ao seu encontro
com Muffat também parecem indicar que a influência entre os compositores
terá funcionado nos dois sentidos, o que só vem reforçar
o carácter justo da presente reavaliação da obra de Muffat:
marcada pelo predomínio de cadências graves (aliando os estilos
francês, italiano e germânico) e sofisticação harmónica
que, segundo o próprio, tinham o propósito de trazer beleza a
um mundo ameaçado por conflitos entre as principais nações.
Propósito nobre e música extraordinária defendida aqui
com « cordas e dedos » pelo Les Muffatti sob a direcção
de Peter Van Heyghen, responsável também pela clareza das notas
explicativas sobre o músico e o seu tempo. Bravo!
Ricardo Gross